segunda-feira, 20 de abril de 2020

Pelo menos...

Hoje fui ao mercadinho aqui do bairro. Há muitos dias quero tomar uma cerveja e ninguém nessa cidade entrega aqui na minha porta. Nem uma pessoa do próprio bairro!! (passada!). Um mágoa isso. Também não achava justo sair só pra isso sabe? Só saio para coisas essenciais. Eu que aguente ficar sem meu vício. Pelo menos não se agrava...

Falando nisso, deixa eu falar sobre: "pelo menos" é uma história que resolvi inventar para que eu pudesse levantar da cama todos os dias sabe? Tô achando tudo uma merda e tô me esforçando para vibrar positivo. Tem dias que funciona, tem dias que não. É assim: "Acordei. Tô com tédio já mas pelo menos não tô com esse vírus. Imagina se eu tivesse?" “Temos que ficar em casa, mas pelo menos estou com minha família. Imagina quem não tá?” "Tem goteira no meu quarto e não posso chamar o pedreiro mas pelo menos é só uma. Imagina se tivesse mais?" Aí apareceu uma na sala e lá estou eu: "pelo menos é só mais uma, imagina se tivesse ainda mais?". Falando em chuva, nesse momento que escrevo esse texto, está uma chuva torrencial lá fora, faltou energia já umas 3 vezes e cá estou eu, mais uma vez, dizendo: “pelo menos meu notebook tá carregado e não perdi o meu texto”, “pelo menos a geladeira não queimou” e por aí vai...

Voltando ao mercadinho, fui. Era umas 12h30. Peguei tudo que eu acho que vou precisar pelos próximos 15 dias (que terei que sair novamente para resolver assuntos prioritários). Gastei bastante, inclusive (como as coisas estão caras!). Fui de máscara, roupas leves – leia pijama – para poder lavar mais rápido quando eu voltar, carrinho de compras pra não carregar peso... No bairro, pessoas vivendo suas vidas como se nada estivesse acontecendo. A minha sensação é que eu era a maluca, de pijama e máscara (beleza que o pijama eu já meio que chutei o balde) no meio da rua enquanto me deparo com gente jogando dominó, conversando na porta de suas casas, gente se abraçando, muitos carros nas avenidas. Com minha cara fechada, eu seguia meu caminho. Apesar de estar diferente daquelas pessoas com meu pijama e máscara, eu parecia estar invisível. Ninguém me olhava. Ninguém estava nem aí. Nessa parte não é espantoso, ninguém realmente não está nem aí não é?

Já no mercadinho, todos os funcionários e donos estavam de máscara. Movimento baixo. Fiz a minha feirinha com tranquilidade. Ninguém tocou em mim. Só comprei uma única caixa de cerveja – eu disse que ia comprar 3 antes de sair de casa, mas lembrei da minha história do pelo menos, eu mesma me julguei e só peguei uma – o restante foi tudo de comida para fazer aqui para minha família.
Chego em casa. Não toco em nada. Minha mãe abre o portão. Tiro sandália. Descarrego carrinho sozinha. Não quero que minha mãe nem meu tio toquem em nada. Vou para o quintal (pelo menos moro em uma casa que tem quintal...). Tiro a roupa toda. Antes do banho, tenho que higienizar item por item que trouxe da rua. Nessa hora eu penso que não deveria ter comprado tudo aquilo (de novo né? Pq eu já tinha pensado quando vi a notinha). Lavo carrinho. Lavo a roupa. Tomo banho. O relógio já batia 14h30. Parecia uma eternidade quando eu tava fazendo o processo de higienização. Só tinham 2h30 que eu estava acordada no dia de hoje e durante 80% desse tempo eu estava focada em não pegar o corona. Na minha cabeça, cantarolava “como será o amanhã, responda quem puder! O que irá me acontecer? O meu destino será como Deus quiser!” em looping (era só esse trecho. Nem sei cantar essa música toda). 

Eu ainda ia almoçar. Botei 1 lata no congelador antes de tomar banho porque 1 cerveja antes do almoço seria muito bom pra ficar pensando melhor. Mas eu ia tomar após o almoço porque não tinha feito nenhuma refeição no dia ainda. Era a primeira. Tô acordando sem vontade de comer... Mas, pelo menos, tenho o que comer e não como porque não quero. E quem tem fome e não tem o que comer? Aí fiquei sem vontade de comer quando pensei assim. É... Às vezes o “pelo menos” não me ajuda. Penso em toda a merda que já existia antes e que agora está escancarada e que está se agravando. Pensei tanto em tudo e acabei esquecendo a cerveja lá. Congelou. Mas tomei mesmo assim, aguada. Como se já estivesse acostumada a me contentar com coisas de qualidade ruim ou para valer o meu esforço, não sei exatamente porque, mas tomei.

Enfim. Esse texto é só para lembrar do dia de hoje. Como foi. Como está sendo os meus dias individuais no meio deste coletivo. Coloquei mais uma cerveja no congelador. A energia voltou e se estabilizou. Pelo menos. Ainda chove, mas, pelo menos, as goteiras pararam porque a chuva reduziu a intensidade. Posso tomar a minha cerveja, dessa vez apenas gelada e não congelada, enquanto posto o texto.

Tenham uma boa noite, se for possível. Com seus pelo menos.
A gente se vira do 
jeito que dá. E assim vamos indo...

domingo, 5 de abril de 2020

Quem está comigo e quem não está?

Sempre paro para pensar em quem está comigo e quem não está e confesso que é bem difícil saber.

É difícil saber quando as evidências não estão evidentes.
É difícil saber quando estão evidentes mas quem poderia julgar (eu) está sob forte influência de sentimento.
É difícil saber se sou eu quem não estou mais com a pessoa (e admitir isso para mim mesma, antes de tudo e me afastar).

Sei que todos temos tempestades, passamos por elas. Isso eu tenho certeza. Alguns mais, alguns menos, alguns outras tempestades, mas todos temos tempestades dentro de nós e passamos por várias.

Como então ter certeza que alguém não está mais comigo?
Eu sinto.
Mas e se eu estiver errada? Se eu estiver criando algo de uma maneira tão convincente na minha mente?
Não é tão simples cortar alguma amizade da sua vida, que tanto participou em outros momentos mas que agora não se encaixa mais. Só não se encaixa...
A prova de amizade seria a distância para manter vivo este sentimento ou tentar o resgate colocando os sentimentos não resolvidos em cima da mesa?

Sou fã da máxima "conte comigo para tudo". Mas o tudo de cada pessoa é diferente.
Quando eu digo isso para alguém, eu estou falando do meu tudo ou do tudo da pessoa?

Sempre paro para pensar em quem está comigo e quem não está e confesso que, em muitos casos, é bem difícil saber.

Ou eu que não quero ver né?!