domingo, 13 de outubro de 2019

Sei não...

Tentando estudar minhas cenas de teatro e sem concentração, resolvi comprar 5 garrafas de 600ml de cerveja em seu Beto, uma barraca aqui na comunidade (ótima tática? Sei não...).
Fiquei chateada porque descobri que seu Beto votou no inominável na última eleição... Seu Beto é tão legal e votou nesse bosta... acontece...

...


Bem, abri minhas cervejas e comecei a ler coisas aleatórias na internet. Vontade de estudar da maneira tradicional é zero. "Hoje é domingo, porra. Estudar?" eu digo. No mesmo segundo eu digo: "estudar não tem hora, fazer seu futuro não tem hora. vai estudar sim." eu também digo.
Achei que as coisas que eu estava lendo eram aleatórias...

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Quando comecei a escrever neste blog, quando retomei a escrita neste blog e quando comecei a publicar algumas poesias na minha recente página no Instagram chamada @escritacomum, eu estava atravessando desilusões amorosas. Eu percebo que sempre recorri à escrita ao estar atravessando momentos de turbulência no campo amoroso (em outros campos, acredito que antes eu preferia deletar - hoje sinto por não ter registrado, afinal tenho uma péssima memória).

Sempre me achei 'diferente'. Não é por uma questão que quero ser diferente mas sentia algo que não era igual a quem estava ao meu redor.
A gente vai crescendo, vivendo e aprendendo. Não tem ditado melhor: "vivendo e aprendendo".


Hoje tenho um pouco da minha consciência desperta para temas como preconceito, racismo e machismo e quando olho para as coisas que já me aconteceram é que compreendo. Só hoje. Eu nunca sei exatamente o que é no momento que está acontecendo sabe? Só depois.

Por piores que sejam as sensações das experiências causadas, eu sempre desejo não esquecê-las para que eu tenha esse discernimento posteriormente, já que nunca é compreensível (pra mim) assim que acontece. 


Qual o motivo de escrever tudo isso? Sei não... Mas eu estava aqui lendo um artigo no Medium chamado "O que é Afromisoginia?" e um trecho me chamou atenção despertando o desejo de escrever esse texto-justificativa: "seres oprimidos pelo racismo estrutural, na mínima expressão de aspectos humanamente naturais, como: raiva, medo ou desejo sexual, indivíduos pretos, em especial mulheres, são vinculados a estereótipos negativos sob a ótica da sociedade." 
Exatamente este trecho me fez lembrar do motivo pelo qual eu comecei a publicar minhas poesias no Escrita Comum sem assinar com meu nome.

Primeiro: estava passando pela milionésima desilusão, tentando não culpar o cara por tudo, tentando entender o que eu poderia mudar em mim para fazer com que as pessoas queiram ficar ao meu lado - ou seja, me culpando pelo ocorrido (isso é um outro assunto tá?) mas além destas dúvidas antigas, o meu desejo em expor meus sentimentos reais era MUITO mais forte. Percebo que era essa a real novidade em mim. Estava passando por um processo (estou ainda) de querer e mostrar para mim e para o mundo que sou gente, que sinto coisas boas e ruins, que tem muita coisa em mim, que não quero rótulos, que quero ser livre para sentir o que as pessoas que não vivem os problemas sociais que vivo vivem.


Segundo: inconscientemente eu estava me protegendo do sistema. Não queria ser crucificada por escrever algo 'errado' - não falo das palavras mas dos sentidos delas (isso é típico nas pessoas pretas porque somos julgados em sermos perfeitos quando o parâmetro são os brancos. Para as pessoas brancas é apenas insegurança ou crença limitante não ser perfeito. para nós, é porque somos pretos).

E terceiro: Também estava me culpando porque achava que não estava militando por escrever sobre amor e desamor. Ou seja, dentro dos meus eu também seria julgada. Aí eu não assinava. Vê que doideira que passa na cabeça da gente...

Mas vejam vocês... eu estou militando, mesmo quando escrevo sobre os sentimentos humanos sem assinar. Continuo sendo diferente, não porque é o que eu quero, o mundo exige que eu seja ainda. Estou militando sem termos científicos. Muitos de nós fazemos isso mesmo sem saber. Como mulher preta escrevendo, minha escrita tem sua importância e peso sempre. Jamais estarei desconectada dos problemas sociais que permeiam a minha vida mesmo que eu queira desconectar. Talvez um dia, quando o mundo melhorar, isso seja possível. Hoje não.

Enfim, fico feliz com a minha coerência inconsciente e com a descoberta em termos mais acadêmicos do que estou fazendo. Ao mesmo tempo penso: será que em algum momento farei algo genuinamente meu sem impacto algum da sociedade que estou inserida? Isso é possível? (quem estuda filosofia que responda kkk)

...

Li de novo antes de publicar esse texto. Tá bem louco (ou não) mas é isso que quero dizer agora.
Chega de não dizer mais o que sinto. Se não for compreendido, e, você que está lendo quer compreender, a gente conversa. Caso não, paciência! A vida é isso mesmo. Nem tudo tem explicação lógica.

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Já tomei 4 garrafas. Falta só mais uma no meu estoque. Acho que vou pegar mais cervejas lá em Seu Beto... 

Gosto de seu Beto mesmo sem ele ter feito nada de bom pra mim. Ele só me vende cervejas. Mesmo que ele tenha votado no falador de bosta lá. Seu Beto já sabe a marca da cerveja que gosto, inclusive disse que compra só porque sabe que eu compro dele. Deixa eu comprar sem levar casco porque confia em mim. É como se eu e Seu Beto já estivéssemos no novo mundo que respeitam as diferenças mesmo sem saber que esse mundo exista. Um dia, alguma (ou algum) cientista dará um termo para o que estamos fazendo.
Sei lá! Acho que sim... Sei não... 

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Crença limitante? Minha crença é MILITANTE

Na boa... para uma pessoa negra, por melhor que seja em qualquer profissão que escolher, existirá uma pessoa branca para ser melhor - para a sociedade, sempre será a branca. 
Mesmo que não seja, a sociedade vai dar um jeito de justificar que é. 
E pensar isso não é uma crença limitante - eu, particularmente, tenho profunda irritação com este termo quando aplicado para TODAS as pessoas do planeta como se elas tivessem as mesmas condições de vida - pensar isso é olhar para a realidade.
Pensar nisso é vital para uma pessoa negra. Saber disso é essencial para uma pessoa negra.
A realidade bate na nossa cara todos os dias e ignorar uma dor assim por completo é sinal que a saúde mental não tá boa.
A minha cabeça ainda tá boa... 


Minha crença é militante. 
Uma pessoa negra, viva, produzindo, sobrevivendo e tendo saúde mental no meio disso tudo é militante.
O sistema quer que a gente pare e o lance é que NÃO VAMOS PARAR!



Enquanto escrevia esse texto, estava ouvindo Metá Metá, música São Jorge (clica aqui para ouvir)

"Chorando na labuta ouço a corrente se quebrar

E o golpe do destino esse eu sinto mas não caio, 
Guerreio é no lombo do meu cavalo"

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Conto DA PAZ de Marcelino Freire - por Anna Carolina Nogueira







Aconteceu. Nasceu. Como estudante de teatro, sempre acho que nasceu antes do tempo, que poderia melhorar... E isso é maravilhoso porque me afirma que não cheguei 'lá'. É o processo que ensina, é com o experimento que aprendo e cada vez mais vou melhorando, buscando. Teatro é AO VIVO, é na hora. É ter fogos, latidos de cachorro, é esquecer o texto e lidar com tudo na hora. É receber a energia do público naquela hora e trocar. Gente, é MUITO forte. Depois desse evento fui assistir a uma peça chama "Aquilo que meu olhar guardou para você" do Magiluth e teve um trechinho que dizia mais ou menos assim: "sabemos quando está no meio e quando chega ao fim mas nunca sabemos quando começa". Me chamou atenção essa fala... ouvi muito e falei muito neste domingo "aqui é meu começo, minha primeira vez com esse texto..." mas na peça do Magiluth me dei conta que eu já comecei. Não sei quando mas já! Só sei que não quero nem vou parar.

Para Thiago Nogueira, Juliana Silva e Ekedy Cinthia do PANELA PRETA, toda a minha gratidão pelo acolhimento e abraço. Sem dúvida foi esse gostinho que senti com a comida, com o espaço, com a energia. As Orixás guerreiras estavam lá. Foi uma honra gigante participar. Vocês são luz. Estamos prontos para a guerra, nossas armas estão bem definidas! Comida e arte: alimento para o corpo e para a mente! Contem comigo!

Assistindo ao vídeo novamente para publicar, faria muita coisa diferente. Antes do público, a atriz é a sua maior crítica.
Obrigada Quiercles por me dar dicas valiosas direcionadas a este meu trabalho 1h de um de seus dias. Foram 60 minutos de aprendizado e usei em vários momentos. Tô feliz que lembrei de usar.

 Bem, quem lê textão emocionado até o fim, assiste vídeo de quase 6 minutos também. Informo que não é igual a assistir ao vivo. Sinto muito para quem não estava lá...Até a próxima, que será em breve!

 Vídeo: Registro de Denise Moura - sou grata a vc, sempre.

Respeita que dói menos

Preta, nordestina, mulher. 
Cacheada (na verdade, uso o cabelo que eu quiser). 
Nariz grande e em pé. Ando por aí de cabeça erguida. 
Não cometi crime algum em ter nascido assim. 
Cometi? Perguntei, mas eu mesma respondo: NÃO. 

Andar por aí com meu nariz grande e em pé (e um sorriso largo junto) é bem irritante aos olhos daqueles que acreditam que, por causa das minhas características físicas, eu teria que me curvar. 

Então, como eu não permito essa imposição na MINHA vida, já me chamam logo de arrogante. 
Bem irritante para os que tentam determinar qual é o MEU lugar na sociedade. Tentam me convencer e não conseguem, aí já me chamam de ignorante. 

Atacar, tentar diminuir, pressão psicológica... Estas sempre serão estratégias utilizadas pelo humano que se sente ameaçado por outro que está ali diante dele e que ele subestima. 

Aceita. 
Aceita que eu não estou tentando me encaixar em porra de rótulo algum, que eu não estou à venda, só estou buscando o que é MEU. 
Eu só quero viver num lugar onde a cor da minha pele e meu gênero não determinem meu futuro, meu caráter, minha capacidade de realizar. 
E pra isso, faço o MEU, sem entrar no espaço de ninguém, sem passar por cima de ninguém. 

Aceita minha liberdade e minha força. 
Não tente me prender pois não caibo em gaiolas. Eu vim pra voar. 
Vim pra conquistar, pra crescer. 
Não queira tirar isso de mim, não vai conseguir. 

Respeita que dói menos. 
Aliás, com respeito, te garanto que nem dói. 


Texto escrito em 02/05/18, publicado nas minhas redes sociais

sábado, 5 de outubro de 2019

Apedrejamento atual

Postou no Facebook: "ó ceus, que vida
tenho casa, marido, 2 filhos para cuidar
ainda tenho mais 1 na barriga."
Colocou umas risadas no fim
para mascarar, disfarçar, 
para dizer para as pessoas: "ó, não é tão ruim assim".

Mas não teve jeito, criou seu calvário.
As pessoas já foram jogando pedras em forma de comentário
"você não deveria postar isso, é desnecessário" disse uma.
"para de reclamar! se acha tão ruim, é melhor separar" outra falou.
"se não tem nada de bom para dizer, é melhor calar!" outra disparou.
Muita pedrada.

Ainda disseram que o marido é um coitado
por que não pode ler o que ela postou
ele não está na rede social...
É... nada de novo sob o sol da sociedade machista e patriarcal:
a MULHER sobrecarregada, cansada, ainda vetada de falar sobre sua vida em qualquer lugar.
Sendo invalidada, silenciada, apedrejada.
Enquanto o HOMEM continua ausente. 
Na rede social, na vida real...
Ele ainda é defendido, protegido, tem o privilégio de ser visto como gente.

O que, aparentemente, foi um simples desabafo individual
tem um significado coletivo, é denúncia de um problema social.

Não nos joguem pedras! As mulheres não podem ser tolhidas.
Fala, mulher! Não serás mais interrompida!
Não precisamos de pedras

Precisamos ser ouvidas, lidas, entendidas e acolhidas.




terça-feira, 1 de outubro de 2019

Eu não odeio homens

Eu não odeio homens.
Odeio homens que acham que porque possuem um pênis, são superiores.

Odeio homens que acham que mulher nasceu apenas para servir.
Odeio homens que contribuem para que o machismo continue vivo.
Odeio homens que não respeitam as mulheres.
Odeio homens que agridem mulheres - física ou psicologicamente.

Odeio homens que não cumprem suas responsabilidades e culpam mulheres por suas atitudes repugnantes.

Eu não odeio homens.
Odeio um sistema criado para favorecer apenas homens e oprimir quem não seja homem.

Odeio qualquer coisa que me impeça ou me prive do meu direito de ser eu mesma.
Odeio homens que leem textos escritos por mulheres descrevendo a opressão que sofrem e tentam ensinar às mulheres o que devem sentir.
Odeio homens que interrompem falas de mulheres quando não é lugar de fala deles.


Se você é homem e entendeu o que eu escrevi, saberá que não te odeio.
Saberá que o meu desejo e luta é por respeito e equidade dos nossos papéis dentro da sociedade.

Saberá que viver bem é um direito de todos nós mas que ainda estamos muito distantes do tão sonhado "somos todos iguais".
Saberá reconhecer seu lugar de privilégio.

Entenderá que a frase "mas nem todo homem..." não cabe em lugar nenhum mais.

Eu não odeio homens.
Odeio homens que [insira alguma merda machista aqui - a lista é bem grande].


Ah! E para quem leu até aqui e ainda disse ou pensou "mas tem mulher que...", sinto informar que você não entendeu nada do que escrevi.
Sugiro que volte ao início e leia novamente. Leia várias vezes, se quiser.

É uma sugestão. 
Longe de mim querer obrigar alguém a fazer alguma coisa, afinal, obrigar e oprimir faz parte das coisas que eu odeio.