quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Para as pessoas negras, existem escolhas mesmo?

não quero experienciar apenas o lugar de dor

tenho sim muita dor, é evidente
mas não carrego esse peso porque eu quero
colocaram nas minhas costas e eu tento, diariamente, me livrar
eu não quero dor. mas colocam mais. sempre mais.
e ainda dizem que é uma “escolha” minha
sentir essa dor ou ignorá-la
se sinto, sou fraca
se ignoro, sou apática
tem sempre um dedo a sentenciar, a condenar.
que escolha é essa que o resultado é sempre ruim?
e por ser ruim, aí sim, é somente minha responsabilidade.
que sociedade é essa que nunca respeita a minha subjetividade
muito menos compreende as dores que me cortam enquanto comunidade?
está tudo errado
me dizem que a dor é uma opção
mas, na verdade, fazem de tudo para que a dor
seja minha condição.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Sim, existe a responsabilidade individual por um ato cometido dentro de um sistema podre.

É, no mínimo, desonesto culpar apenas a raiz de tudo para livrar-se da sua parte diante de uma injustiça social. Isso se aplica, principalmente, quando o indivíduo tem a possibilidade de ‘canetar’, posição de visibilidade, de poder ou de privilégio dentro da sociedade. 

“Sempre foi feito assim e não tem como ser diferente”, “fui criado assim” são frases usadas como justificativas para se manter preso, bem confortavelmente, às teias que o sistema criou e se isentar da responsabilidade individual. Desonestidade dos que tem o poder. Para os que estão embaixo de tudo, sendo impactados e impedidos de viver bem, as atitudes individuais que comungam com o sistema garantem que os mecanismos de prisão permaneçam sempre vivos. Péssimas condições de vida, nenhuma dignidade, direitos básicos negados – em absolutamente todos os campos da vida (saúde, educação, moradia, transporte, trabalho, lazer, relacionamentos).

“E por que ninguém faz nada?” Várias pessoas fazem, dedicam a vida para libertar a si mesmas e a quem mais puder e quiser, mas, em quantidade, os aliados do sistema podre ganham. Me fala: como ter forças para lutar no meio dessa guerra quando não tem pão na mesa? A fome é um dos maiores mecanismos de aprisionamento. A fome deixa a vista turva... Como enxergar alternativas diferentes das que existem e poder arregaçar as mangas para mudar tudo? Diante de situações de vulnerabilidade social, como é possível pensar estrategicamente e desviar dos abutres que tentam enriquecer com a desgraça e dos que querem aumentar a desgraça?

Os que tem poder podem fazer algo. Desonestidade dos que tem o poder. Qualquer pessoa, ser, indivíduo que pode mudar o destino de outra pessoa dentro desse sistema podre e não faz nada, corrobora totalmente com a manutenção desse inferno que a gente (sobre)vive.

Sim, existe a responsabilidade individual por um ato cometido dentro de um sistema podre. E eu torço muito, todos os dias, para que a justiça aconteça. A impunidade me revolta. Eu sinto uma raiva gigante. Uma sensação de impotência. Uma dor imensa diante dos golpes diários que vejo e que cortam – também – a minha carne. Eu não quero ter essa preocupação, mas ela está aqui. Estou lutando para não sucumbir. E, infelizmente, lutar é a única coisa que me resta. Descansar é luxo. Custa caríssimo. E não há nenhum romantismo nisso.

Ainda tenho que me deparar discursos que invalidam, diminuem ou colocam a minha indignação no mesmo patamar do ódio gratuito destilado pelos que tem poder e privilégio. Aos moralistas, que colocam todo e qualquer ato numa mesma balança, sem análise alguma de contextos e fatos, vocês também serão responsabilizados e cobrados. Vão sim.

Que o machado afiado da justiça, os raios e trovões atuem. Que o vento sopre.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

É que no lugar da cabeça, ela tem um coração

é que no lugar da cabeça, ela tem um coração.
mas não pense que ela sente apenas amor não
é um coração que sente tudo
alegria, raiva, tristeza, compaixão, aflição
aceitar isso sacudiu seu antigo mundo da razão
ela não cabe mais em sua armadura, soltou o escudo
abriu a caixa do peito
é o seu jeito de buscar a cura para os seus medos.
há pessoas que nunca irão compreendê-la.
mas ela sabe que quando se volta pra dentro
aprende com suas dores e flores
amores e horrores.
todo dia tenta ser generosa consigo mesma
é um exercício árduo
ela tenta cuidar de si e retornar para o mundo,
ainda mais intensa.
ela prefere ter o coração na cabeça.
e no seu corpo inteiro.