terça-feira, 23 de junho de 2020

Reflexão sobre as pessoas que se dizem antirracistas porém reproduzem o racismo sem pensar

Ok, vou aceitar pela 4326375474 vez que não dá para pensar mesmo né?! Afinal, fomos criados assim, dentro de uma sociedade racista, somos todos racistas e não podemos mudar – contém dose de ironia nesta frase. Vamos seguir. Quando uma pessoa querida fala ou faz algo racista, considero que a pessoa não pensou (risos), não lembrou (rs) e está lá dialogando comigo de boa então comento que a pessoa está sendo racista. PAM! Atenção para a virada de cena: “Tudo tu coloca racismo no meio!” ou “também não é assim” ou “eu não quis dizer isso!” ou “não posso ser racista, meu pai é negro” ou “eu ajudo comunidades carentes, você sabe” (meus olhos revirando).
São as pessoas que se dizem aliadas que fazem isso. Direto. E são pessoas amigas.

Quantas reuniões sobre melhoria de políticas públicas (ou até mesmo em empresas privadas), onde foram apontadas as pautas para o povo preto e sobre diversidade a fim de corrigir problemas pela raiz, ou algo para melhorar a estrutura do Estado/Empresa, foram ouvidas respostas uníssonas às solicitações?
-“Realmente isso que você falou é louvável e concordo 100% - quero deixar beeeem claro que concordo totalmente, mas agora não é o momento. Precisamos ter foco”.
-“Isso que você pede é muito estrutural. Como vamos resolver algo tão enraizado? Precisamos de algo mais imediato. Não é legal que falemos disso agora. Agora não é o momento.”
São as pessoas que se dizem aliadas que fazem isso. Direto. E elas estão em posição de algum poder.

E alguém que cria um filme, uma série, um texto ou poema falando sobre o sofrimento do povo preto diante de tudo. Maravilha. Vai gerar debate né? Quem criou? Uma pessoa branca. E todo o elenco escolhido? Pessoas brancas. Mas estavam lá todos vestidos com suas camisas antirracistas, quadrado preto nas redes sociais e punho cerrado levantado. “Você está censurando a arte?” Esse é o rebate que artistas renomados, respeitados e considerados referência falam. Não enxergam o apagamento das pessoas pretas? Não percebem que estão querendo protagonizar uma luta onde não são os protagonistas nem muito menos os heróis salvadores? Como assim? Elas querem fazer “homenagem” (risos) e se tornarem pretas. Mas quando a polícia vem bater, quando o Estado mata, essas pessoas não são pretas. São as pessoas que se dizem aliadas que fazem isso. Direto. E são elas que tem a visibilidade.

É beeeeem raro a pessoa dizer: “eu não tinha pensado por este ângulo” e realmente entender o lugar de fala do branco na luta antirracista. Sim, a branquitude tem lugar de fala (e não sou eu quem diz isso). 

Nas mais variadas tentativas de justificar o que está na nossa cara, atitudes como: silenciamento, transformação da luta antirracista em luta em identitária/supremacia negra (risos) ou a tentativa de abalar o psicológico com a frase “calma, você está nervosa” (e pasmem, não precisa você levantar a voz hora alguma para ouvir isso tá?) são executadas deliberadamente. 

Ser antirracista é constante. É vigilância. Eu estou também nesse processo. E não há descanso. 
Falar sobre racismo na sociedade, é olhar para ela como um todo (citei só 3 exemplos aí: relacionamento interpessoal, institucional e arte/cultura) e buscar a melhora. E não sou eu quem diz isso. Sinto muito, mas muito mesmo, quem tem limitações de compreensão. Ter a mente fechada é mais seguro né?! É uma escolha... Fazer o quê? [coloque uma pitada de deboche aqui].

Enfim, deixo um verso que escrevi na madrugada de 20 de junho que eu ainda não havia postado.

esse teu antirracismo é engraçado 
tu diz que tá do nosso lado 
mas quando a gente olha direitinho... 
tá lá o teu racismo velado! 
tu grita por aí que ajuda na luta 
mas quando a gente fala, tu não escuta. 
porém, vive dizendo: “esse não é meu lugar de fala né?” 
o que tu quer? que a gente te aplauda? 
tu quer o protagonismo no antirracismo? 
que engraçado! 
sobre lugar de fala, deixa eu te contar: 
você tem um lugar, sabia? 
lugar de quem se beneficia dessa opressão 
tu pode falar disso, por exemplo. 
reconhecer privilégios, abrir mão, brigar por reparação... essas coisas 
protagonizar a nossa dor? huum... não 
tu não sabe, tu não sente... aí realmente só a gente, infelizmente 
se fosse geral, talvez não existisse racismo 
 que foi inventado pela branquitude e tal... 
então, quando você fala por mim, você me cala 
você lança mais uma bala contra mim e a favor desse sistema opressor 
isso não é ser antirracista não 
isso é ser racista. é racismo mesmo. 
teu antirracismo é engraçado. mas só para você.
eu não estou mais dando risada de suas piadas.
@escritacomum

quarta-feira, 17 de junho de 2020

A senhora acha que o racismo vai acabar?

Ontem eu participei de uma reunião com alunos da Escola Padre Rocha, localizada em Fortaleza/CE a convite do Leandro, professor de matemática destes alunos (e professor faz tudo né gente?!)

Bem, estava bem ansiosa porque falar com adolescentes é uma responsabilidade gigantesca (já falei sobre isso 3 posts atrás) mas ao mesmo tempo era também para ouvir o que eles tinham a me dizer, o que eu ia aprender com eles - amo aprender!

Pois bem, pessoas! Abri os trabalhos com “hoje não é mais terça feira?” afinal, eram 20h de uma terça feira, faltavam poucas horas para acabar a terça mesmo e encaixava bem. Não tem como contar a minha história enquanto atriz, escritora, poetisa sem apresentar minhas obras e sem falar de mim como pessoa. Tô misturada. Como pessoa, falo de minha família – que é de onde venho – e quais são as dificuldades que enfrento. Sem ser surpresa para ninguém que lê esse texto, um desses obstáculos é o racismo. Não é um assunto que falo só agora né?!

A primeira pergunta de um dos alunos foi: “Dona Anna, a senhora acha que o racismo vai acabar?” (o tratamento deles comigo foi assim, tentei reforçar que sou jovem mas não teve jeito kkk) e pasmem: tinha um ‘invasor’ em nossa reunião com a tentativa de não permitir que nossa conversa fosse harmônica. Quando perguntamos “quem é você?”, ele digitou: “seu pesadelo”. Dentre outras providências, banimos o invasor – que usava a foto de um garoto negro no avatar.

Racistas não nos dão 1 segundo de paz em nenhum lugar. Ele atua por diversas frentes. Por isso, a importância de conversarmos sobre isso incansavelmente, saber sobre ele, quais são origens e quais são as atitudes que podem dar força ao racismo para que não pratiquemos. Ser antirracista é uma CONSTANTE. Cansa? Iapoi!! Mas, que outra opção há numa guerra se não lutar?

Sobre a resposta, como mulher negra com menos de 10 anos de reconhecimento que sou negra (e isso também é constante), preciso acreditar que sim, um dia vai acabar. Poder estar falando com eles sobre isso, escrever os meus textos, mostrar a minha obra seja sobre racismo ou todos os outros assuntos que envolve o ser humano, exercer a profissão que eu quero é a prova que muitos e muitas vieram antes abriram caminhos. E eu preciso continuar falando, mostrando meu rosto, estudando e espalhando que o racismo tem que acabar. E saibam: somos muitas que pensamos assim. Eu posso até não ver quando esse dia chegar, mas sei que contribuí para que ele deixasse de existir.

“Posso até cansar, mas não vão me parar. Não morro, não desisto”. Essa frase é minha, mas também é de muita gente. Não estou só!

Aos alunos do Padre Rocha, vocês foram lindos e acolhedores. Fiquei imensamente feliz com nosso papo que só seria 1h e foram 2h prazerosas horas conversando sobre nós! Teatro, poesia, auto estima, eugenia, música, religião e sobre um mói de assunto a gente falou. Obrigada pela aula de amor. Obrigada Leandro pelo convite. Você está fazendo uma diferença enorme na vida dessa galerinha!

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Tem sentido lutar para ser livre e depois prender-se em novas correntes?

Nesse texto você não vai encontrar respostas para você. Eu não sei nada sobre você. Por mais que você me conte, por mais que tenhamos muitas coisas em comum, por mais que vivamos dentro de um mesmo coletivo e sermos impactades socialmente por uma mesma opressão, ou até mesmo que a gente viva situações distintas mas a gente se ame, eu não vou conseguir te passar essas respostas.

Tenho ideias. Ideias estas que não vieram do nada. Fico lendo e vendo um monte de textos e pessoas diferentes de mim, de universos diferentes e também similares e fico tentando definir o que não quero para mim. São intelectuais renomados e anônimos afinal, todo mundo tem muito para ensinar. Outras ideias aparecem como uma voz na minha cabeça, como se realmente existisse alguém, que não é este meu eu de agora, me dizendo coisas e que eu tenho a liberdade de querer seguir ou não.
Mas, mesmo que, em determinados momentos, eu não saiba exatamente o que fazer, eu sei exatamente o que eu não quero.
Eu não quero ser prisioneira de mim, de coisas que eu acredito, de amigos, de ideias. Não quero ficar estática, parada, morta. Não quero ficar amarrada com a sensação de estar livre. Não quero ser enganada. Não quero mais não ser eu.

De você, que lê esse texto, eu não sei. E não posso te dizer exatamente o que você deve querer na sua vida. Só te digo que existem milhões de orientações para seguir, não há somente uma. Somos vários mundos dentro desse mundo.

Não sei se esse texto fará algum sentido para você mas espero que sim. Eu não quero ter que dizer como você tem que entender o que eu escrevi.
Quero que você sinta. E o sentimento é seu.

Eu quero ser livre, quero ser eu.
E eu sou muito complexa. E simples também.
Intensa e extensa.
Às vezes caibo em uma caixinha pequena porém continuo me sentindo densa.
Às vezes me sinto tão imensa que eu poderia fazer da galáxia a minha toalhinha de rosto.

Não quero novas correntes. Quero ser livre.
Quero liberdade de verdade pra gente.