sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Um dos devaneios no busão

Quando leio textos antigos meus percebo o quanto eu tinha receio de parecer mal agradecida com Deus. Eu tinha medo de parecer revoltada. Sentia raiva mas disfarçava, chegava até a não escrever (perdi tanta coisa assim...).

Mas há muitas coisas ocultas nas minhas palavras fofas. Às vezes, até me incomodo com elas. Não é que elas não devem ser usadas mas é o modo que as palavras fofas são usadas em momentos deturpados. Então, aprender a usar as emoções e palavras para cada momento é a missão.

É bem transparente que estou em um momento revolta. Meu jeito de ver as mesmas coisas foi alterado. Tô achando o mundo cada vez mais bosta!
Continuo acreditando em Deus (isso eu repito para mim sempre) mas não o que pune e sim o que me conhece e compreende. Se Ele sabe de tudo, sabe de mim.

Acredito que eu esteja realizando o meu maior sonho: ser de verdade.
Vejo coisas feias em mim, questiono porque elas estão ali. Questiono a mim e a Deus.

Posso conversar com Ele sempre, às vezes chamo Ela. Me dirijo como eu quero e sem que essa força espiritual que eu decidi que participe da minha vida fique tentando me punir.

Onde vai dar, e não sei (acho que já escrevi isso várias vezes, se não escrevi, pensei) mas esse não saber é o que me move. Sou controladora mas me entedio rápido quando sei tudo que vai acontecer adiante.

Enfim, sigo degustando, aprendendo e, principalmente, me movimentando e mudando.

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Esse texto foi escrito dia 07/10/19 enquanto eu ia para uma aula de teatro. Estava no ônibus e escrevi todo garranchado (minha letra já é uó e no balançar, fica pior). Achei aqui no caderno.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Esse povo privilegiado...

Vi agora um texto escrito por uma mulher branca, loira e rica falando de preconceito. Era um texto resposta para alguém que comentou "queria ver se você fosse negra, você não sabe do que está falando" em um texto que ela contava a história dela.

Se fosse sensata, esta senhora branca e loira nem sequer faria um texto colocando racismo e preconceito como se fosse uma coisa só. Se fosse sensata, esta senhora branca e loira reconheceria seu lugar de privilégio e se calaria. Se fosse sensata, esta senhora branca e loira seria bem diferente e o mundo que ela vive também.

Após uma resposta dessa, deveria vir a reflexão, senhora branca e loira. O pior é que você acredita que refletiu e que as suas palavras eram necessárias para o mundo. Er... Não são.

Ao ler textos como os seus, que deslegitimam a luta contra o racismo, que desconsideram circunstâncias sociais que os indivíduos estão inseridos, que ignoram completamente as condições desiguais de oportunidades individuais e coletivas, que sequer mencionam raça, gênero e classe como fatores importantes na formação da sociedade que as empresas que você tanto defende estão inseridas, você perpetua um sistema nojento e cruel.  


E pessoas como você, senhora branca e loira ganham palco, ganham mídia, ganham dinheiro, ganham espaço. A sua face é o que a sociedade diz que é de anjo, dentro dos padrões, é aceitável então, tudo que você diz parece ser sensato. Ou seja, é privilégio que usufrui por causa da cor da pele. Mas no seu mundo, você acredita que é mérito seu puro. E que qualquer pessoa tem a mesma facilidade, basta lutar. Se não luta, é mimimi (risos). Depois, vem o privilégio pela conta bancária, depois por ser uma pessoa que mantém o sistema patriarcal de poder, mesmo sendo uma mulher.

Estude um pouco, querida senhora branca e loira. Evite passar vergonha. Leia mulheres negras. Ouça o que mulheres negras tem a falar. Leia sobre racismo.

Você realmente parece não saber o que está falando. E você fala para muita gente...
Enquanto você não estuda e fala coisas que não sabe afirmando como verdades, você atrapalha muitas lutas. Apesar de bonitos (mas só para quem acredita em conto de fadas), seus discursos sobre humanidade são vazios, rasos. Eu não te acompanho mas vez ou outra chega em mim alguma coisa sua seguida da frase: "exemplo de como não ser".

Vou te pedir para fazer mais uma coisa que você fala bastante só não executa: se importe com as outras pessoas. 
Em algum momento de sua vida, se importe.
Um abraço!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

NÃO É NÃO, PORRA!

trabalhavam juntos
ele queria transar com ela e tentou beijá-la
ela disse não 

ele ficou com raiva e passou a prejudicá-la no trabalho.

eram amigos
ele queria transar com ela
ela disse não 

ele ficou com raiva e passou a desprezá-la.

eram casados
ele queria transar com ela
ela disse não
ele ficou com raiva e matou ela

eles disseram que elas provocaram eles
eles disseram que a culpa de sentirem tanta raiva era delas
eles dizem e a sociedade acredita neles
eles nos matam e quem recebe proteção e compreensão? eles.

BASTA!

toda vez que uma mulher diz NÃO
ela recebe uma espécie de punição.
já reparou? Não?
Ah!... Só reparam quando aparecemos mortas
na televisão.
ele sempre é muito próximo dela.
já reparou?

não tá errado isso não?

NÃO É NÃO, PORRA!

E encerrando com o grito do coletivo chileno LASTESIS:
"e a culpa não era minha, nem onde eu estava, nem o que vestia. O violador é você!"



domingo, 1 de dezembro de 2019

Reflexões: escolhas, maquiagem, racismo.

Cá estou eu, início do último mês do ano de 2019 e refletindo sobre uma coisa secular que é o racismo. 
Refletindo em como é cansativo ser uma mulher negra. Escrevo agora com base na minha experiência pessoal mesmo - não leia como uma frase generalizada.
Refletindo sobre as minhas escolhas na vida e é praticamente impossível que exista alguma ao qual o racismo não tenha permeado. INFELIZMENTE.
Refletindo se eu até posso chamar de escolhas. Reflito.
Podem dizer que é exagero? Claro que podem. Quem não sente na própria pele sempre dirá que estou exagerando nas minhas reflexões né?! Mas eu ainda acredito que exista muita gente que não precisa sentir na própria pele para entender, por isso, publico algumas das minhas reflexões.

Acabei de assistir a um vídeo da afro empreendedora Ana Paula Xongani. Apareceu na minha área de explorar no instagram, em uma busca que sempre acredito ser despretensiosa mas os algoritmos são bem certeiros né?! Não sei se vai ficar sempre ativo o vídeo mas para ver, clique aqui

Diz absolutamente tudo só com a ação e o poder do som. Maravilhosa!!
E aí né?! meu cérebro pensa (sim, ele pensa! ufa): "nunca gostei de maquiagem" 
Sempre achei que era uma escolha minha não usar sabe? Mas após ver esse vídeo, hoje, fim de 2019, paro para pensar que pode não ter sido uma escolha minha. 
Inconscientemente, eu poderia estar tentando me preservar, não me machucar ao chegar nas lojas de cosméticos e não encontrar o produto adequado para minha pele. Passar por isso é chato, não valia a pena - para mim. Então eu "escolhi" ser a "rebelde" que não usa maquiagem enquanto todas usam.
Eu digo - para mim mesma e para os outros - que eu não tenho paciência de me maquiar mas e se o motivo real for ser esse que acabei de descrever?
Dizem: "mas hoje está muito diversificado, tem para todas as tonalidades, muitas marcas, muitos produtos, nem existe mais isso que você está falando aí, Carol..." será exagero meu? O vídeo tem 3 dias de publicado e mostra uma linha que ACABOU de ser lançada e é de uma empresa BRASILEIRA. Será mesmo que tem para todas as tonalidades? (pergunta sarcástica porque o vídeo já responde) 
Gente, a Ana Paula Xongani recebeu uma maleta personalizada da empresa de cosméticos lá e não tinha absolutamente nenhum produto adequado para o tom de pele dela - vários erros aí mas quero falar 'só' do racismo.

"Ah, mas sua pele é ótima, não precisa disso" ouço bastante. E é mesmo mas eu queria querer, queria poder escolher entre usar e não usar por mim mesma e não por fatores externos.
Outro fator também que me pode ter me ajudado a "escolher" não usar também foi o poder aquisitivo. Aquela coisa que alguém inventou que "tudo que é bom, custa caro" e aí se eu não tinha dinheiro, a solução melhor - para mim - sempre foi nem sequer querer a maquiagem. Aprendi a matar alguns dos meus problemas de uma forma diferente.
E o pensamento de nem entrar em certas lojas - vejam bem - para eu não ser maltratada? Se você é pobre, certamente já passou por alguma situação que vendedoras/es te olham dos pés a cabeça e na expressão dessas pessoas já nos dizem que não podemos comprar o que se vende ali. Diga aí que louco isso?! Vocês não acham? (se vocês me visualizarem falando esse texto, essas duas perguntas finais eu abro um sorriso e pergunto com ironia).
Quando a gente olha a palavra ESCOLHA no dicionário, uma das descrições diz assim: 'capacidade de escolher bem, de escolher com discernimento' então é uma palavra que eu tenho refletido bastante sobre seu significado e principalmente na aplicabilidade desse substantivo na minha vida e na vida de muitas pessoas.

Detalhe: a tonalidade da minha pele é mais clara e, se eu quisesse, seria até mais 'fácil' achar produtos, mas não deixo de sofrer racismo ou discriminação em lojas de cosméticos, então eu "escolhi" me preocupar com outras coisas na vida.
Não é que isso (maquiagem) não seja importante tá?! Quando falamos de autoestima da mulher, principalmente para mulheres negras, a aparência estética tem um peso gigantesco. O mundo faz isso com a gente. Dizem - o tempo todo - que somos feias. 

Reflito muito sobre a minha imagem, o que eu digo sem dizer nada. O meu jeito de andar e de me vestir, como eu amo meu corpo, minha pele do jeitinho que é. Estou com 36 anos e aprendendo todos os dias a fazer isso. A ME AMAR. Foram muitos anos me odiando, querendo mudar meu nariz, meu cabelo, usando coisas que não foram feitas para mim, não foram pensadas para mim, tentando me encaixar onde não me cabe e isso dói. Pensar nisso dói. Às vezes eu ainda penso: onde me cabe?
Tô escrevendo e chorando. O choro é de cansaço mesmo. Eu luto todo dia, é 'normal' cansar (o normal deveria ser não lutar por essas coisas, se a sociedade avançasse, maaaas estamos aqui falando disso em 2019).

Você que está ainda nessa leitura, agradeço. 

Reflita sobre racismo estrutural na sua vida, na vida de todes. Ver campanhas publicitárias estreladas por pessoas de pele negra não quer dizer que o mercado publicitário mudou. Que o mundo mudou. Tem muita coisa pensada para nos machucar, nos restringir, nos aprisionar, para manter um sistema construído sorrateiramente, com raízes muito profundas.
Quero e vou usar as minhas mãos para arrancar cada pedaço dessa raiz que eu encontrar.

Poderia "escolher" não pensar nisso tudo? Será? 
Sempre reflito o que realmente vem de mim. (ixe! esse final pode gerar outro texto mas vou ficando por aqui).

E em meio ao bombardeio, sigamos sorrindo!
"Sorrir enquanto luta é uma forma de combater os inimigos, principalmente os que habitam em nossos corações" amo essa frase do poeta Sergio Vaz

Boa semana!