domingo, 1 de dezembro de 2019

Reflexões: escolhas, maquiagem, racismo.

Cá estou eu, início do último mês do ano de 2019 e refletindo sobre uma coisa secular que é o racismo. 
Refletindo em como é cansativo ser uma mulher negra. Escrevo agora com base na minha experiência pessoal mesmo - não leia como uma frase generalizada.
Refletindo sobre as minhas escolhas na vida e é praticamente impossível que exista alguma ao qual o racismo não tenha permeado. INFELIZMENTE.
Refletindo se eu até posso chamar de escolhas. Reflito.
Podem dizer que é exagero? Claro que podem. Quem não sente na própria pele sempre dirá que estou exagerando nas minhas reflexões né?! Mas eu ainda acredito que exista muita gente que não precisa sentir na própria pele para entender, por isso, publico algumas das minhas reflexões.

Acabei de assistir a um vídeo da afro empreendedora Ana Paula Xongani. Apareceu na minha área de explorar no instagram, em uma busca que sempre acredito ser despretensiosa mas os algoritmos são bem certeiros né?! Não sei se vai ficar sempre ativo o vídeo mas para ver, clique aqui

Diz absolutamente tudo só com a ação e o poder do som. Maravilhosa!!
E aí né?! meu cérebro pensa (sim, ele pensa! ufa): "nunca gostei de maquiagem" 
Sempre achei que era uma escolha minha não usar sabe? Mas após ver esse vídeo, hoje, fim de 2019, paro para pensar que pode não ter sido uma escolha minha. 
Inconscientemente, eu poderia estar tentando me preservar, não me machucar ao chegar nas lojas de cosméticos e não encontrar o produto adequado para minha pele. Passar por isso é chato, não valia a pena - para mim. Então eu "escolhi" ser a "rebelde" que não usa maquiagem enquanto todas usam.
Eu digo - para mim mesma e para os outros - que eu não tenho paciência de me maquiar mas e se o motivo real for ser esse que acabei de descrever?
Dizem: "mas hoje está muito diversificado, tem para todas as tonalidades, muitas marcas, muitos produtos, nem existe mais isso que você está falando aí, Carol..." será exagero meu? O vídeo tem 3 dias de publicado e mostra uma linha que ACABOU de ser lançada e é de uma empresa BRASILEIRA. Será mesmo que tem para todas as tonalidades? (pergunta sarcástica porque o vídeo já responde) 
Gente, a Ana Paula Xongani recebeu uma maleta personalizada da empresa de cosméticos lá e não tinha absolutamente nenhum produto adequado para o tom de pele dela - vários erros aí mas quero falar 'só' do racismo.

"Ah, mas sua pele é ótima, não precisa disso" ouço bastante. E é mesmo mas eu queria querer, queria poder escolher entre usar e não usar por mim mesma e não por fatores externos.
Outro fator também que me pode ter me ajudado a "escolher" não usar também foi o poder aquisitivo. Aquela coisa que alguém inventou que "tudo que é bom, custa caro" e aí se eu não tinha dinheiro, a solução melhor - para mim - sempre foi nem sequer querer a maquiagem. Aprendi a matar alguns dos meus problemas de uma forma diferente.
E o pensamento de nem entrar em certas lojas - vejam bem - para eu não ser maltratada? Se você é pobre, certamente já passou por alguma situação que vendedoras/es te olham dos pés a cabeça e na expressão dessas pessoas já nos dizem que não podemos comprar o que se vende ali. Diga aí que louco isso?! Vocês não acham? (se vocês me visualizarem falando esse texto, essas duas perguntas finais eu abro um sorriso e pergunto com ironia).
Quando a gente olha a palavra ESCOLHA no dicionário, uma das descrições diz assim: 'capacidade de escolher bem, de escolher com discernimento' então é uma palavra que eu tenho refletido bastante sobre seu significado e principalmente na aplicabilidade desse substantivo na minha vida e na vida de muitas pessoas.

Detalhe: a tonalidade da minha pele é mais clara e, se eu quisesse, seria até mais 'fácil' achar produtos, mas não deixo de sofrer racismo ou discriminação em lojas de cosméticos, então eu "escolhi" me preocupar com outras coisas na vida.
Não é que isso (maquiagem) não seja importante tá?! Quando falamos de autoestima da mulher, principalmente para mulheres negras, a aparência estética tem um peso gigantesco. O mundo faz isso com a gente. Dizem - o tempo todo - que somos feias. 

Reflito muito sobre a minha imagem, o que eu digo sem dizer nada. O meu jeito de andar e de me vestir, como eu amo meu corpo, minha pele do jeitinho que é. Estou com 36 anos e aprendendo todos os dias a fazer isso. A ME AMAR. Foram muitos anos me odiando, querendo mudar meu nariz, meu cabelo, usando coisas que não foram feitas para mim, não foram pensadas para mim, tentando me encaixar onde não me cabe e isso dói. Pensar nisso dói. Às vezes eu ainda penso: onde me cabe?
Tô escrevendo e chorando. O choro é de cansaço mesmo. Eu luto todo dia, é 'normal' cansar (o normal deveria ser não lutar por essas coisas, se a sociedade avançasse, maaaas estamos aqui falando disso em 2019).

Você que está ainda nessa leitura, agradeço. 

Reflita sobre racismo estrutural na sua vida, na vida de todes. Ver campanhas publicitárias estreladas por pessoas de pele negra não quer dizer que o mercado publicitário mudou. Que o mundo mudou. Tem muita coisa pensada para nos machucar, nos restringir, nos aprisionar, para manter um sistema construído sorrateiramente, com raízes muito profundas.
Quero e vou usar as minhas mãos para arrancar cada pedaço dessa raiz que eu encontrar.

Poderia "escolher" não pensar nisso tudo? Será? 
Sempre reflito o que realmente vem de mim. (ixe! esse final pode gerar outro texto mas vou ficando por aqui).

E em meio ao bombardeio, sigamos sorrindo!
"Sorrir enquanto luta é uma forma de combater os inimigos, principalmente os que habitam em nossos corações" amo essa frase do poeta Sergio Vaz

Boa semana!

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