sábado, 25 de julho de 2020

Nós, pretas, realmente movemos a terra.

Em 1992 aconteceu o Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas em Santo Domingo na República Dominicana. Nesse encontro nasceu a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-Caribenhas. A Rede, junto à Organização das Nações Unidas (ONU) lutou para o reconhecimento do dia 25 de julho como o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha. No Brasil, em 2014 foi instituído também ao dia 25 de julho, a celebração em memória de Tereza de Benguela, líder do Quilombo do Quariterê em Mato Grosso e que por duas décadas esteve à frente do quilombo resistindo bravamente contra a escravização até 1770, quando foi morta.
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25 de julho. 1 dia. Ou Julho inteiro, mês das Pretas. 31 dias. Mas é necessário ressaltar a importância da mulher negra na construção de uma sociedade mais justa e igualitária todos os dias. Muitas ancestrais moveram as estruturas sociais e tentaram quebrar os sistemas opressores que perpassam pelo corpo de uma mulher negra. Por nós. Abriram caminhos para estarmos aqui hoje.
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Carolina Maria de Jesus, com seu livro Quarto de Despejo: Diário de uma favelada, publicado em 1960, escancarou para o mundo inteiro como era viver com fome. Através das palavras mostrou que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Escreveu a realidade sem medo.
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Lélia Gonzalez, professora, filósofa e antropóloga lutou contra o racismo por toda a sua vida e foi pioneira ao falar das conexões entre gênero, raça e classe, lá pela década de 70 em seus artigos e, posteriormente, em livros. Ajudou na fundação do Movimento Negro Unificado.
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Maria Beatriz do Nascimento, historiadora, poeta, roteirista, ativista disse: “enquanto existir racismo, eu quero lutar contra o racismo” (1987). Em seu documentário chamado Ôrí (1989) ela reforça que “é preciso a imagem para recuperar a identidade, porque o rosto de um é o reflexo do outro”. Teve sua vida interrompida em 1995 pelo companheiro de uma amiga que alegou que ela interferia em sua vida privada com a esposa. O crime aconteceu 11 anos antes da lei Maria da Penha ser sancionada.
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Existiram muitas outras mulheres negras no Brasil e no mundo. Lutando. Usando suas armas. O mundo se choca com a autonomia de uma mulher negra e nos chamam de agressivas. Esta é uma tentativa de nos fazer parar. Não conseguirão. Eu que te escrevo e você que lê, estamos aqui e continuaremos honrando nossas ancestrais, usando as nossas armas. Sorrir, amar e viver (não somente sobreviver), numa sociedade que não nos quer, também são excelentes armas.
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Ângela Davis (filósofa norte-americana) diz “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta junto com ela” e não é à toa. Não é só uma frase de efeito. Nós realmente movemos a terra. Desde o princípio. E vamos continuar.


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