É, no mínimo, desonesto culpar apenas a raiz de tudo para livrar-se da sua parte diante de uma injustiça social. Isso se aplica, principalmente, quando o indivíduo tem a possibilidade de ‘canetar’, posição de visibilidade, de poder ou de privilégio dentro da sociedade.
“Sempre foi feito assim e não tem como ser diferente”, “fui criado assim” são
frases usadas como justificativas para se manter preso, bem confortavelmente, às
teias que o sistema criou e se isentar da responsabilidade individual.
Desonestidade dos que tem o poder. Para os que estão embaixo de tudo, sendo
impactados e impedidos de viver bem, as atitudes individuais que comungam com o
sistema garantem que os mecanismos de prisão permaneçam sempre vivos. Péssimas
condições de vida, nenhuma dignidade, direitos básicos negados – em absolutamente
todos os campos da vida (saúde, educação, moradia, transporte, trabalho, lazer,
relacionamentos).
“E por que ninguém faz nada?” Várias pessoas fazem, dedicam a vida para
libertar a si mesmas e a quem mais puder e quiser, mas, em quantidade, os
aliados do sistema podre ganham. Me fala: como ter forças para lutar no meio
dessa guerra quando não tem pão na mesa? A fome é um dos maiores mecanismos de
aprisionamento. A fome deixa a vista turva... Como enxergar alternativas
diferentes das que existem e poder arregaçar as mangas para mudar tudo? Diante
de situações de vulnerabilidade social, como é possível pensar estrategicamente
e desviar dos abutres que tentam enriquecer com a desgraça e dos que querem aumentar
a desgraça?
Os que tem poder podem fazer algo. Desonestidade dos que tem o poder. Qualquer
pessoa, ser, indivíduo que pode mudar o destino de outra pessoa dentro desse
sistema podre e não faz nada, corrobora totalmente com a manutenção desse
inferno que a gente (sobre)vive.
Sim, existe a responsabilidade
individual por um ato cometido dentro de um sistema podre. E eu torço muito,
todos os dias, para que a justiça aconteça. A impunidade me revolta. Eu sinto
uma raiva gigante. Uma sensação de impotência. Uma dor imensa diante dos golpes
diários que vejo e que cortam – também – a minha carne. Eu não quero ter essa preocupação,
mas ela está aqui. Estou lutando para não sucumbir. E, infelizmente, lutar é a
única coisa que me resta. Descansar é luxo. Custa caríssimo. E não há nenhum
romantismo nisso.
Ainda tenho que me deparar discursos
que invalidam, diminuem ou colocam a minha indignação no mesmo patamar do ódio
gratuito destilado pelos que tem poder e privilégio. Aos moralistas, que
colocam todo e qualquer ato numa mesma balança, sem análise alguma de contextos
e fatos, vocês também serão responsabilizados e cobrados. Vão sim.
Que o machado afiado da justiça,
os raios e trovões atuem. Que o vento sopre.
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