quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Sim, existe a responsabilidade individual por um ato cometido dentro de um sistema podre.

É, no mínimo, desonesto culpar apenas a raiz de tudo para livrar-se da sua parte diante de uma injustiça social. Isso se aplica, principalmente, quando o indivíduo tem a possibilidade de ‘canetar’, posição de visibilidade, de poder ou de privilégio dentro da sociedade. 

“Sempre foi feito assim e não tem como ser diferente”, “fui criado assim” são frases usadas como justificativas para se manter preso, bem confortavelmente, às teias que o sistema criou e se isentar da responsabilidade individual. Desonestidade dos que tem o poder. Para os que estão embaixo de tudo, sendo impactados e impedidos de viver bem, as atitudes individuais que comungam com o sistema garantem que os mecanismos de prisão permaneçam sempre vivos. Péssimas condições de vida, nenhuma dignidade, direitos básicos negados – em absolutamente todos os campos da vida (saúde, educação, moradia, transporte, trabalho, lazer, relacionamentos).

“E por que ninguém faz nada?” Várias pessoas fazem, dedicam a vida para libertar a si mesmas e a quem mais puder e quiser, mas, em quantidade, os aliados do sistema podre ganham. Me fala: como ter forças para lutar no meio dessa guerra quando não tem pão na mesa? A fome é um dos maiores mecanismos de aprisionamento. A fome deixa a vista turva... Como enxergar alternativas diferentes das que existem e poder arregaçar as mangas para mudar tudo? Diante de situações de vulnerabilidade social, como é possível pensar estrategicamente e desviar dos abutres que tentam enriquecer com a desgraça e dos que querem aumentar a desgraça?

Os que tem poder podem fazer algo. Desonestidade dos que tem o poder. Qualquer pessoa, ser, indivíduo que pode mudar o destino de outra pessoa dentro desse sistema podre e não faz nada, corrobora totalmente com a manutenção desse inferno que a gente (sobre)vive.

Sim, existe a responsabilidade individual por um ato cometido dentro de um sistema podre. E eu torço muito, todos os dias, para que a justiça aconteça. A impunidade me revolta. Eu sinto uma raiva gigante. Uma sensação de impotência. Uma dor imensa diante dos golpes diários que vejo e que cortam – também – a minha carne. Eu não quero ter essa preocupação, mas ela está aqui. Estou lutando para não sucumbir. E, infelizmente, lutar é a única coisa que me resta. Descansar é luxo. Custa caríssimo. E não há nenhum romantismo nisso.

Ainda tenho que me deparar discursos que invalidam, diminuem ou colocam a minha indignação no mesmo patamar do ódio gratuito destilado pelos que tem poder e privilégio. Aos moralistas, que colocam todo e qualquer ato numa mesma balança, sem análise alguma de contextos e fatos, vocês também serão responsabilizados e cobrados. Vão sim.

Que o machado afiado da justiça, os raios e trovões atuem. Que o vento sopre.

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