Um lugarzinho criado para escrever as caraminholas que habitam a massa cefálica debaixo dos caracóis dos meus cabelos. Histórias e visões de um mundo distante (ou próximo!). Tenho a liberdade de usar o verbo 'mergulhar' para falar sobre assuntos densos e também sobre assuntos rasos. Amo mergulhar nos assuntos mas no mar mesmo, tenho medo.
domingo, 25 de agosto de 2019
Ramos Eletrônica (parte II)
Nota: para entender melhor este texto, leia primeiro o post anterior: Ramos Eletrônica
Como já estava tarde, deixei para ir sacar o dinheiro no domingo pela manhã. No sábado, eu já tinha perdido uma programação mesmo, então não sairia mais de casa.
Amanheceu chovendo. Muito mesmo.
Minha mãe me acordou 06h50. Seis e cinquenta da manhã de um domingo chuvoso. Não podia ser verdade! SEIS E CINQUENTA.
Tudo bem que eu tinha combinado com o Seu Ramos de entregar a metade do dinheiro de manhã mas não era tão cedo assim. Tudo bem que eu precisaria ir de ônibus até um caixa eletrônico qualquer para cumprir o acordo mas não precisava ser tão cedo assim. Tudo bem que eu estava tendo um sonho louco onde eu revivia um romance com um ex antigo que não quero nem ver a cor (porque ele apareceu esta noite? não sei) - nesse caso ela me salvou - mas mesmo assim, não precisava.
Resmunguei que ele iria de 10h30 para 11h e continuei deitada mas não dormi mais. Infelizmente.
Ele tinha dito que era para eu ligar assim que estivesse com o dinheiro já que não fechamos um horário. Seu Ramos queria passar aqui 08h30 e eu já tinha dito que este horário eu estaria dormindo - e aí surgiu o novo horário lá por volta das 11h da manhã, nada certo mas minha mãe que não quis ouvir, não lembrou, ficou com o primeiro e foi me acordar SEIS E CINQUENTA - até agora estou um pouco inconformada mas vou seguir a vida.
Uns 40 minutos depois levantei. Lavei o rosto, tomei meu café da manhã, coloquei uma roupa qualquer. Tudo sem dar um pio. Minha mãe tava dormindo. Meu tio assistindo à missa na TV de 14 polegadas tubinho no quarto dele. Recife frio.
Peguei meu guarda chuva, um livro e saí com minha cara amassada e de poucos amigos na rua. Não quis levar o celular por questão de 'segurança'. Isso já era umas 08h00 da manhã. Meu tio até se ofereceu para ir comigo mas eu disse que não precisava. Certamente ele estava com medo que eu fosse assaltada, mas a gente tem que viver normal né?! Não queria me preocupar em demasia com isso. Deixei ele assistindo a missa.
A rua deserta - todo mundo estava aproveitando o domingo de chuva... dormindo! Mas a minha vizinha da frente era a única pessoa na rua, consertando uma pá que ela pega o cocô dos seus cachorros. Ela estava na chuva e na calçada da minha casa martelando pregos na pá. Disse que a outra pá dela roubaram quando ela deixou 2 minutos na esquina (eu ri, sei que é errado mas eu ri).
- Te acordei foi? Perguntou ela enquanto contava a história do furto da pá
- Acordou. Respondi eu, em tom de brincadeira.
- Me desculpe viu?!
- Tchau mulé. Acordou não, eu tenho que ir. Bom dia.
Segui meu caminho sem olhar pra trás e ela continuou a martelar a nova pá. E eu pensava: "eu só queria estar dormindo e a mulher pode mas está na chuva, batendo prego, falando de furto..."
Resolvi aceitar que só eu poderia resolver esse problema e comecei a falar frases ordenando a mim mesma que curtisse a viagem. "Olha que paz!" falei sozinha. Estava me sentindo bem, ali sozinha na rua. Encontrei uma pessoa ou outra com espaços longos entre uma e outra durante o trajeto até o ponto de ônibus. Alguns carros roubaram meu silêncio mas era coisa rápida. Parou de chover e apareceu aquele sol tímido, parecia que ele tava com preguiça também.
Na avenida do ponto de ônibus, as duas lojas de presentes concorrentes já estavam abertas. Com som na porta e tudo. Destruindo a calmaria que me acompanhava durante o caminho. A farmácia e a padaria também estavam funcionando (às vezes nem sei se estes estabelecimentos fecham, na verdade).
Fiquei lendo o livro enquanto aguardava o ônibus. Um livro do Bukowski. Quando eu estava no embalo da leitura, veio o ônibus. Fechei o livro, subi no ônibus, cumprimentei o motorista e o cobrador (que horas eles acordaram para estarem ali?). Eu já estava na rua, acordada, pés molhados... mesmo assim, eu já estava curtindo a viagem. O livro estava me levando para outro lugar. E o ônibus também.
Rapidinho chegamos no terminal onde eu poderia sacar o dinheiro. Não tinham nem 10 pessoas no ônibus- era cedo (já falei isso bastante ne?!).
Desci para cumprir a missão. Cheguei a pensar em dizer ao motorista: "me espera aí motô" mas não tive a cara de pau na hora.
Fiz o que tinha que fazer, sempre observando à minha volta (não posso esquecer do medo que meu tio teve de que eu fosse assaltada e aí lógico que eu também estava). Mas o assalto estava acontecendo já: eu mesma 'assaltando' a minha conta. E o banco, na hora de cobrar os juros desse valor, vai me assaltar também, 'legalmente'. Fazer o que? Gente esforçada faz essas coisas. Agradeci que tenho essa opção e guardei os R$400 no menor bolso do meu short. Fingi que eu era uma agente secreta e tava invisível.
De lá, segui para a fila - inexistente neste horário - do ônibus. Só tinha EU na fila desse ônibus. E minha gente, não é que voltei mesmo no mesmo ônibus que fui? Número do carro: 476. O motorista deu uma paradinha para mijar, mordiscar um pão e então foi o tempo exato para que eu resolvesse minha vida. Nem se eu tivesse pedido a ele teria dado tão certo. Olha aí o destino me dando uma ajudinha por aceitar o imutável? haha
Li menos o livro no caminho. Tentei fazer a observação de tudo na rua. Por muito tempo, eu fui a única passageira no ônibus. O cobrador aproveitou para ouvir todos os áudios de algum grupo de whatsapp que ele participa (ele deve ser o ausente...). Depois subiu um casal de idosos cada um com uma bíblia na mão, e depois mais duas senhoras. Ficou todo mundo concentrado na dianteira do ônibus. E eu sozinha no restante do ônibus inteiro. No meu reino. Raro. Raríssimo. Foi uma ótima viagem.
Chego em casa por volta de 08h45 e vou lá ligar para Seu Ramos avisando que já pode vir buscar o dinheiro.
- "O telefone chamado está temp..." disse aquela voz chata ao qual eu não ouço a mensagem completa.
- Não tô acreditando que esse homem me fez acordar cedo à toa! Disse eu assim que desliguei. Apesar da ótima viagem, antes das 10 meu humor não é dos melhores mesmo. E eu tinha que transferir a causa para alguém né?!
Será que seria a decepção? A enganação? Ele tão firme no que disse mas não cumpriu a parte no nosso trato de estar disponível para receber minha ligação? E aquela confiança? Passou muita coisa na minha cabeça. Ligo novamente. Mesma mensagem. Coloquei meu pijama de volta e deitei, mas não dormi.
Avisei à minha mãe, que logo se prontificou a ir ao estabelecimento de Seu Ramos.
Minutos depois chega minha mãe de volta e nada do velho. Não o achou. Chegou lá e só encontrou o lugar que ele atende, sem a presença dele. Ela disse que é minúsculo e que nossa TV nem caberia lá. Estava tocando hinos de igreja na rádio. E aberto. Assim, só com a porta encostada sabe? Ele não tranca. Confiante é Seu Ramos viu?! Ensinaram onde era a a casa dele mas ela não achou. Ela resolveu voltar. Mas gente... cadê esse homem?
Ligamos novamente.
- "O tefefone cha..."
Resolvemos então esperar. Não restava nada a fazer a não ser esperar e confiar.
Lá pelas 11h aparece Seu Ramos aqui em casa. Roupa de domingo: bermuda, camiseta regata, sandália de couro trançada, barba e bigodes bem cuidados e um cigarro aceso. Um andar um tanto apressado mas tinha sorriso na fala.
- Ô madame, me desculpe! Falou ele para minha mãe que já estava no terraço. Ela explicou o que fez e ele disse (sem esperar ela terminar de falar):
- Esqueci de avisar que desligo o celular aos domingos! Sou humano não é?! Se eu deixar ligado, não me deixam em paz! Não estou no telefone nem para minha mãe aos domingos. Preciso tomar um guaraná, dar um respiro né?! Esqueci mesmo! Me desculpe, madame. Repetiu que se não fosse assim, ele não vivia o domingo, que esqueceu (lembra que eu falei que ele repete falas?).
Minha mãe falou que não tinha problema, foi lá dentro, buscou o dinheiro e entregou
à Seu Ramos. Eu fiquei no meu quarto. Só cumprimentei seu Ramos pela janela dessa vez, mas pude ver e ouvir todo seu movimento.
Gente... Achei digno com ele mesmo. Ele tem um compromisso e disciplina com ele mesmo. Seu Ramos não é Ramos Eletrônica aos domingos. Abre a exceção em casos raros. Confiante ele. A confiança voltou completamente. E lembra o nosso horário combinado antes? 11h. Foi a hora que ele disse que apareceria. E apareceu.
Ele continuou o texto com o dinheiro na mão, já saindo rua afora dizendo que segunda feira, 17h30 estará aqui deixando a TV nova de novo.
E lá se foi Seu Ramos viver seu domingo, desconectado do celular, com sua confiança de vida.
- Até segunda!
- Até!
(continua...)
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