Recentemente chegou um pedido no meu direct no Instagram para que eu ajudasse uma pessoa a montar um look para uma festa de aniversário. Achei estranho, já que não sou estilista, porém continuei a leitura atentamente.
A pessoa vai como convidada e, segundo ela, terá a presença de pessoas famosas na festa... 'vai ser babadeira', escreveu a pessoa na mensagem-pedido.
O look ao qual ela queria minha ajuda estava relacionado ao turbante já que o tema da festa será Bahia (e a festa não será na Bahia).
A princípio me veio logo na mente a festa de aniversário esse ano daquela diretora branca de uma famosa revista que fez sua festa de aniversário de 50 anos em Salvador com o tema aparentemente Brasil Colônia. Misturar gente branca com Brasil Colônia, a gente já sabe qual vai ser a ótica né?!
Sim, o (aparentemente simples) pedido me remeteu a este episódio de imediato e pegando o gancho que a pessoa começou a mensagem com "ei amiga maravilhosa..." me senti então na obrigação de tentar ajudar pela cordialidade - eu respondo com educação a qualquer indivíduo que aja com educação comigo e na obrigação de não silenciar o meu sentimento em relação ao pedido já que a palavra amiga estava na frase, amigos não escondem nada - e eu não gosto de banalizar essa palavra (as redes sociais fazem muito isso, por exemplo).
Respondi assim: "oiiii! tudo bem? sobre celebrações dessa forma que você descreveu, para que minha ajuda seja de uma maneira bem coerente com tudo que penso, escrevo, estudo e represento, me explica melhor esta festa. são muitas problemáticas quando o pedido vem com este fim.."
Entendam, a problemática é minha, é meu sentimento enquanto mulher negra que usa o turbante e faz um trabalho individual e ultimamente coletivo em resgatar autoestima das mulheres que quiserem usar este acessório como uma coroa. Não, não faço distinção da cor da pele delas PORÉM a maioria que frequenta estas oficinas é NEGRA.
O turbante é símbolo de resistência, existe uma história por trás dele e EU - reforço EU - quero sempre que possível e com consciência colaborar com a propagação deste símbolo desta forma. Não respondo pela comunidade negra, nem posso. Não sou a detentora de todo o conhecimento sobre turbantes na humanidade e a minha resposta para a pessoa nem tem a ver com apropriação cultural sabe? (inclusive, se tu quiser ver um artigo massa sobre isso, clica aqui). Mas me gerou incômodo e eu precisava informá-la e saber mais detalhes antes de prosseguir.
Quando eu comecei a usar turbante anos atrás, eram muitos olhares tortos para mim, olhares curiosos e jocosos, recebia também muitas perguntas racistas disfarçadas de curiosidade, que eu nem enxergava o racismo... Hoje, que eu tenho outra postura ao usar, (vai mudando com a vivência e o conhecimento) ainda percebo esse tipo de olhar na rua mas o meu foco são nos de acolhimento, que tem aumentado significativamente. Recebo sorrisos que dizem sem palavras: "muito maravilhosa!" "você é igual a mim!" "eu também quero ser rainha!". Sorrisos gratuitos de mulheres, crianças, homens. Porque eu sei que é de dentro para fora sabe?!
O turbante tem uma importância gigantesca para mim, de verdade.
Eu ficaria extremamente triste caso alguma mulher do continente africano me hostilizasse ao me encontrar usando turbante só porque sou brasileira. A forma que eu uso é com respeito, carrego uma história particular com ele e carrego a história dele. Portanto, jamais hostilizarei mulheres brancas que usem o turbante da maneira como ele deve ser usado, respeitando o que ele representa para nós e que ele também tenha significância para ela.
Nas oficinas de turbantes que fiz, com mulheres com históricos que não tenho a vivência em minha pele, rola uma coisa interessante: o olhar delas de admiração em me ver usando e ao se verem usando. É muito incrível. Eventos com 4 horas de duração e elas usando até o final, livres, se sentindo perfeitas, querendo registrar para sempre, querendo ter coragem de usar sempre. Mulheres que não costumam se sentirem assim com frequência. É um resgate. E presenciar isso é um presente.
Na hora que vou colocar o turbante nelas eu costumo dizer: "Rainha só baixa a cabeça na hora de colocar a coroa tá?! Depois, não mais." Isso tem um peso imenso. Elas internalizam isso e reflete no olhar e na postura delas. Sério.
O lance é esse: a minha contribuição será com um propósito de propagar e enaltecer a nossa cultura respeitosamente ou será que a pessoa quer usar como uma fantasia? (sobre se 'fantasiar' das culturas já dá outro texto). Se for a segunda opção, desculpe, não posso ajudar. Não quero, não vou. Não deu tempo para ela usar o termo fantasia (e eu ainda espero, juro, que ela não tenha pensado nesse termo).
Eu não posso ajudar sem antes me certificar que a pessoa compreende o que significa. Eu não consigo. Podem me chamar de chata e cri cri, sou mesmo. Mesmo eu sempre publicando sobre o assunto (ou seja, meu posicionamento sobre isso é bem transparente), a pessoa só vê minhas fotos de turbante como meras fotos. Se lê o que eu escrevo, não entende. Mas estou aqui para explicar na maior paciência a primeira vez, afinal, é muita informação na internet mesmo né?! Não dá pra ver tudo. Eu não preciso fazer isso, mas eu faço.
Este episódio inspirou até um versinho que publicarei nos próximos dias no Escrita Comum:
"tu vê me close
mas não quer ver meu corre
mesmo que eu te mostre
aê, faz isso não!
chega junto pra fortalecer
porque se chegar para me afundar,
te banir da minha vida é meu dever
agradar a quem tenta obstruir minha caminhada?
não, não sou obrigada"
É muito vasta a explicação desse verso. Não é especificamente para a pessoa. O caso me inspirou e saíram estas palavras. Traz aqui pessoas que só querem estar na alegria contigo mas na ralação, você que faça só. Traz aquelas pessoas que dizem "das tuas alegrias e belezas eu me visto mas das tuas dores não quero saber, não tenho nada a ver". Traz também a reação ao receber essas coisas. Nos julgam como radicais quando reagimos mas ninguém enxerga a agressão que nos foi e ainda é feita. A gente não tem que aceitar na nossa vida quem não compreende nem respeita nossa história.
Comecei e faltava terminar, ao ouvir a música da Bia Ferreira chamada Não precisa ser Amélia veio o estalo!:
Não precisa ser Amélia pra ser de verdade
cê tem a liberdade pra ser quem você quiser
Seja preta, indígena, trans, nordestina não se nasce feminina torna-se mulher
E não precisa ser Amélia pra ser de verdade
cê tem a liberdade pra ser quem você quiser
menos preta, indígena não se apropria que cê preta dia a dia pá policia cê não é
Não soube mais nada da festa, a pessoa não mandou mais mensagens. Teoricamente ela ainda é minha amiga lá nas redes (não sei será após o texto haha). Mas reitero que transformo os meus pensamentos em textos, para debater, para que eu possa ler daqui a um tempo e saber como eu pensava, se mudei, o que impacta. Esse texto é sobre a minha pessoa e não sobre ela.
Enfim, é isto. Acredito que, com mais esta leitura, dá para compreender um pouco do que estou fazendo no mundo com a minha existência, com meu corpo de mulher preta. Se não compreender, paciência porque vou continuar no propósito.
beijos!
Ps: sobre o artigo de apropriação cultural que eu botei o link aí em cima, leiam. Ele realmente é muito massa! E vejam esse clipe da Bia, inicialmente tem um recado arrepiante e necessário haha.
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