terça-feira, 19 de maio de 2020

Não tenho filhos

Tenho 36 anos e 7 meses. Pertinho de fazer 37. Não tenho filhos.
Sou filha única, por parte de mãe. Com essa idade toda, nunca vi a minha mãe deixar de estar preocupada comigo.
Em algumas situações ela disfarça bem essa preocupação porque ela não quer me preocupar (coisas de mãe, sabe?). Não importa onde eu esteja, se eu estiver longe, ela está preocupada. Nada demais que a impeça ou que me impeça de viver, mas é que ela tem essa ligação forte com a filha dela.

Coisa de mãe. Não tem como mudarmos isso. Isso é de mãe.

Não é só porque ela só tem a mim. Acredito que seria a mesma coisa se ela tivesse mais filhos. Já observei isso em muitas outras mães - minhas tias, por exemplo, que todas tem mais de uma filha/filho são sempre preocupadas com seus filhos.

Não tenho filhos saídos do meu ventre. E acho gerar um filho uma coisa mágica.
Uma pessoa crescendo ali dentro da sua barriga. No meio de todos os seus órgãos. Hormônios, emoções, sensações, mudança de corpo, planos PARA o mini humano, planos COM o mini humano. Com quem será que vai parecer? E a personalidade? Vai 'puxar' de quem? Pés e nariz inchados. Nasceu. Dor da po**a. Ou não, 'só' um corte. Olhamos a carinha da pessoinha pela primeira vez. Noites sem dormir mas tem um ser que é totalmente dependente de você, você não pode pregar o olho mesmo. Você cuida com um amor que nem sabia que poderia sentir.
Assim que são alguns detalhes de muitos relatos de mães. Misturando maternidade real com a mágica inexplicável de como alguém que você acabou de conhecer passa a ser a pessoa mais importante da sua vida pra sempre.

Eu sou essa pessoa na vida da minha mãe. E nasci mulher com útero, podendo gerar também uma pessoinha em mim.  Mas a vida muda muito a gente. Não me lembro de ter tido alguma vez esse sonho de ser mãe. Morro de medo, na verdade. Me atravessam muitas questões que destroem a mágica toda.
Racismo, classismo, genocídio, feminicídio... Um exemplo: pessoas negras são assassinadas a cada 23 minutos no Brasil. Jovens. Condenadas por causa da cor da pele e da classe social. A cada 23 minutos essa mágica é interrompida para diversas mães. Dor da po**a. Eu sinto. Imagina as mães?

Não é possível que para sentir as coisas a gente tenha que ser mãe. Eu só posso aprender sentindo na minha própria pele apenas? Não pode. Se eu pensar que é só assim que resolve, como vou viver em uma sociedade machista e patriarcal?Que esperanças devo ter? Homem não tem útero, nunca vai gerar uma criança. 
Eles jamais sentirão. E a sociedade é regida por eles. Pessoas brancas jamais saberão o que é o racismo. Qual a solução? Temos mesmo que ficar assistindo a tudo isso e APENAS agradecer porque não foi um filho que saiu do nosso útero que morreu? 
Agathas, Joãos, Pedros, Jenifers, Kauãs, Letícias... CRIANÇAS.

Minha mãe estava, no momento exato que eu escrevia este texto, na janela do meu quarto olhando a rua. Ela nem viu que bati a foto. Perguntei o que ela estava fazendo ali, e ela disse que queria ver o mundo do meu ângulo. Ela falou no sentido literal mesmo. Tava falando somente a visão ali da minha janela. Talvez, se ela visse o mundo como eu vejo, eu nem tivesse vindo ao mundo...



Eu não sei se vou ser mãe um dia. Até o meu querer depende de muitas coisas. Mas eu quero muito que todos os dias para que os filhos e filhas das mães que eu amo, das que conheço e das que eu não conheço cresçam em um mundo melhor. E você? Precisamos fazer alguma coisa urgente. JUNTES.


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