terça-feira, 24 de novembro de 2020

DENTISTA

Zuki acordou com uma dor de dente dos infernos na segunda feira. A gengiva que abriga este dente latejava tanto que parecia que ia explodir, mas Zuki, que nunca foi de tomar remédio ou baixar a cabeça por causa de alguma dor, pensou: “veio do nada, vai embora do jeito que chegou. Já já passa”. Não passou. “Será que foi porque não bebi ontem?” sim, também pensava isso. No sábado, Zuki tinha enchido a cara no bar com uma amiga e mais duas pessoas desconhecidas (que se tornaram melhores amigos em 6 horas de conversa fiada e filosófica na velha mesa de plástico). A cachaça foi tão grande que, no domingo, o café da manhã foi chá de boldo com 2 comprimidos para o fígado. Domingo foi um dia perdido. Mal comeu. “Como pode, na segunda feira, esse dente amanhecer assim?” Pensava Zuki. Passou o dia tomando um certo cuidado, mas não deixou de comer nada. Comia e sentia dor. Na terça feira, até acordou melhor, mas na hora do almoço, a dor veio lhe fazer companhia. INFERNO! Um verdadeiro caos. Preparou comidas pastosas para tentar não machucar e seguiu seu dia. Aprendeu até a relaxar o maxilar porque os dentes superiores e os inferiores nem podiam se tocar. Que dor filha da mãe. Só de um lado da boca. Foi dormir. Ou ao menos tentar. 

Na manhã da quarta-feira, a dor estava lá dizendo olá. “Mas que porra é essa?”. Jogou até na internet para ver a relação que tinha dor de dente e olhado. Acreditara que alguém estava mandando alguma energia ruim. “Não é possível! Já tive dor de barriga na semana passada, Deus! Toda semana vou ter alguma urucubaca é? Assim, vai ser meu fim?” exclamava em tom dramático como se estivesse falando com alguém fisicamente. Nessa hora da contestação com Deus sobre seu perrengue, lembrou do caldinho de macaxeira que tomou no bar, no sábado: “Minha gente, vou tomar esse caldo, mas estou achando meu santo tem quizila com macaxeira! Se eu me ausentar, estarei no banheiro.” Alertou na mesa. Todo mundo riu. Ninguém presente havia escutado a expressão ‘quizila’ e lá estava Zuki a explicar e a rir. Na hora não deu nada, mas no domingo, deu sim. Deu ruim! Onde já se viu duvidar de Santo? Mas só lembrou de tudo isso na quarta-feira. “Eita! É isso! Só pode! Vou resolver!” Acendeu uns incensos, pediu desculpas a Deus, a todos os santos e a quem mais se ofendeu no plano espiritual e logo em seguida foi almoçar (a barriga roncava de fome. A esta altura, já usava o ditado: “quem tem medo da dor, não come”- é, não é bem esse o ditado, mas a fase ruim da barriga de Zuki já havia passado...). Bem, as desculpas não foram aceitas e pós almoço foi que a dor veio com tudo mesmo! A lágrima chega escorreu nos cantinhos dos olhos de Zuki. “PUTA QUE PARIU! Vou na emergência, não dá mais!”. Pegou os documentos, um livro para ler na espera e foi andando até o hospital público do bairro. Não tem plano de saúde. Era uma hora da tarde. Nenhuma nuvem no céu. Dor insuportável. Quase 1,5km a percorrer. Seguiu suando mais que tampa de chaleira. Era o jeito. 

20 minutos depois, chegou. Sala de espera vazia. “Ahh! Deus ouviu minhas preces!”, pensou. Se dirigiu à recepção, e quase sem conseguir falar de tanta dor, apontou para a bochecha e disse: “DENTE!”, com uma certeza que a moça ia pedir os documentos para fazer a ficha. A atendente prontamente: “Estamos sem dentista hoje. Para esse atendimento, é no hospital TAL ou no TAL”. Por alguns segundos Zuki chegou a acreditar que dor de dente havia afetado o ouvido porque não ouviu aquilo. “HÃ?”. A moça repetiu. Zuki murchou mais que uma pimenteira quando botam olhado. PUTA MERDA! Eram dois bairros distantes dali, ia demorar umas duas horas, de ônibus, para chegar no mais perto. Não estava acreditando. A caminhada tinha sido vão. O jeito era retornar para casa, suando duas vezes mais, com a dor potencializada e um livro, nunca aberto, debaixo do braço. 

No caminho de volta, resolveu passar por uma rua que não tinha passado na ida e avistou uma placa bem grande: DENTISTA. Uma clínica particular de bairro. Preço popular. Estava com uns 30 reais na carteira, em notas de 2 e de 5 (mas é dinheiro) e resolveu entrar. A dor ainda estava fortemente presente. A clínica é uma casa adaptada para ser clínica. Não tinha nenhuma pessoa aguardando atendimento. Havia uma mulher, que disse ser a recepcionista – e estava do lado de dentro do balcão – com uma criança no colo, e um homem sentado numa cadeira de balanço daquelas que o assento são tirinhas de plástico colorido. A que ele estava sentado era vermelha. Assistiam algum desenho animado na TV de 14 polegadas de tubo pregada no alto da parede. Mulher, criança e homem olhavam para Zuki, que olhava todo o ambiente com cara de espanto e dor (mas o espanto estava escondido através da máscara). Viu uma sala vazia, sem lâmpada e sem porta. Paredes com reboco caindo, uma placa pendurada onde dizia: atendimento só com máscara  e o único barulho era o da TV. O ‘silêncio’ foi interrompido pela mulher: 

 "Pois não? Diga!”
“Vocês atendem emergência?”, perguntou Zuki, que continuava olhando tudo ao redor.
“Sim!” respondeu ela.
– “Tá sentindo o quê?” Perguntou o homem, se balançando na cadeira.
– “Dor, muita dor” respondeu Zuki. – Quanto é para atender? Continuou.
– “Preciso olhar. Depois lhe digo o preço”, respondeu o homem.
– “O senhor é o dentista?”
– “Sim, sou eu” e continuava a balançar, sem o menor sinal que ia levantar.

O lugar era esquisito, escuro, ninguém. Mas o desespero da dor era maior e Zuki falou: - “OK!”. O homem então parou de ver seu desenho e entrou no consultório para se preparar. Esse tinha porta. “Senta aí”, disseram os dois ao mesmo tempo apontando para uma cadeira de balanço com as cordinhas amarelas. Zuki sentou na pontinha como se fosse sair correndo a qualquer momento. A criança olhava para a TV e para Zuki, enquanto a mulher pegou uma caneta e um pedaço de papel de rascunho dizendo:
– “Vou fazer a sua ficha. Tá doendo muito? Como é seu nome?”
Zuki só balançou a cabeça respondendo sobre a dor.
Ela continuou: “Arranca logo então!” 
Os olhos de Zuki cresceram 3 vezes de tamanho. Exclamou: “Aqui é assim? Chegou com uma dor, arranca?”
Ela disse: “Sim! Como é seu nome?”
Antes que Zuki respondesse, o homem abriu a porta. Já vestido com um jaleco aparentemente limpo e uma nova máscara no rosto. “Pode entrar!” disse ele. A mulher interveio: “Estou fazendo a ficha! Estou fazendo a ficha!” Ninguém deu ouvidos. E um pedaço de papel é lá ficha? Sem saber a coragem que tinha, Zuki entrou na sala do homem. Lá dentro, ar condicionado, tudo parecia limpo, até tinha o cheirinho de flúor, que normalmente tem salas de dentistas, mas era bem pouco. “Sente aí e abra a boca!”. O homem não usava luvas. “Como ele vai examinar minha boca sem luvas? Vou sair correndo.” Pensou isso, mas sentou na cadeira. Pernas para fora em posição de fuga. Zuki não conseguiu relaxar. O homem olhou, olhou e com um martelinho bateu em cada dente. “Dói?” e Zuki com a boca aberta mas em posição de correr só respondeu “AHAAAAM”. Ele disse: “Aqui fora não tem nada, preciso ver em um raio X pra saber se preciso extrair. Aqui o raio X custa 20. Eu mesmo faço”.  Foi a deixa que Zuki precisava. Extrair não era uma opção e aquela análise estava muito duvidosa. 20 conto um raio X? É barato assim? Extrair? Pensou. E falou: “Doutor, tô sem nada aqui e vou lá em casa buscar tá?”. Pegou o livro, nunca aberto, que tinha deixado em uma cadeira dentro do consultório e saiu em disparada. Nunca mais pretendia colocar os pés ali.

A dor continuava a pulsar freneticamente. A cada passo dado a caminho de casa, ela aumentava. Pegou o telefone e ligou para uma clínica particular de um bairro chique que já conhecia de outros tempos. Lá era caro, mas era o jeito! Ia se virar para pagar. O atendimento? Só tinha vaga dali a duas semanas. “COMO VOU VIVER COM ESSA DOR POR DUAS SEMANAS, DEUS?” Gritou. Deus não respondeu foi nada. E a atendente do outro lado da linha aguardando a confirmação. Marcou a consulta. Depois resolve como paga. Ao desligar, a dor de dente abrandou. Quase sumiu. Talvez as batidinhas do dentista macabro fizeram algum efeito. Não! Foi o susto. Ou será que foi a atitude que tomou mais cedo em jogar fora a escova de dentes que tinha comprado junto com seu ex-amor? Eram escovas de dente iguais, só mudava a cor. Nessa hora, Zuki lembrou que está passando por uma fase de esquecer um amor que não vingou. Lembrou que falou desse amor na mesa do bar no sábado para pessoas desconhecidas, já que as conhecidas não aguentam mais ouvir. Lembrou que logo após o almoço naquela quarta, olhou para o porta escovas de dente e quando viu apenas uma escova, seu coração doeu. Para livrar-se da dor de amor, jogou fora aquela maldita escova. Então, veio a dor de dente colossal. Dor de amor, dor de barriga, dor de dente. É muita dor para Zuki. Só esquecia de uma dor quando outra chegava. “Chega! Não quero mais dor! Passou!” disse Zuki em voz alta.

Naquela tarde, foi ao mercado escolher uma nova escova de dente. Seguiu em frente. Já tem três dias que o dente de Zuki não dói. Já o coração, segue contando os dias para chegar o dia que não vai mais contar quantos dias dói.


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